Em meu redor, só vejo as árvores e a entrada em “V”
invertido ao fundo da rampa, quase que subterrânea, numa espécie de bunker
armado para velhinhos, com fraldas e boiões de fruta para resistir ao
apocalipse. Engendravam-se planos de manutenção de fraldas, cimeiras com vista
à generalização da aprendizagem do tricotanço;
eram feitos discursos pelo Comandante Zé Alfredo a apelar às enfermeiras para a
satisfação da sua necessidade de SG Ventil e de “estar com uma moça nova, portanto”.
Era um mundo à parte, e eu um turista assustado de cada vez que atravessava a
fronteira.
Não estou com ele faz hoje duas semanas. Da última vez
que o vi, pareceu-me particularmente feliz, entusiasmado com a possibilidade de
poder ter um quarto maior, com uma televisão que satisfizesse as suas
necessidades de domingo à tarde e uma cama de rei, “para pessoa e meia!”
disse-me. Sempre foi daquelas pessoas que ficava feliz por nada. Provavelmente,
isto é apenas suposição minha, afinal, o meu avô sempre foi velho aos meus
olhos. Não sei muito sobre rugas, mas deduzo que ser velho é precisamente isso:
ficar feliz por nada. Aumenta-se a idade, diminuem-se os consolos: já não há a “potência
de antigamente”. Potência para tudo: para a mulher, para as necessidades da
mulher, para os filhos, para as necessidades dos filhos, para o trabalho, para
as obrigações do trabalho. É-se velho: não há potência para nada. A felicidade
está num quarto maior, numa refeição melhorada, num piscar de olho a uma das
enfermeiras, num dar as mãos com aquela amiga especial que fala connosco no
pátio, sorriso enrugado de cada vez que lhe tocamos as mãos brancas e macias, estranhas
àquele corpo acabado e dorido.
A esperança do meu avô era que a cama de rei fosse o suficiente:
ele e a amiga teriam de, de alguma forma, transmutar-se para pessoas a três
quartos, seres tão bem medidos, tão bem pesados, que não permitiriam intrusões
àquele pequeno Éden para pessoa e meia. Subiam na cama e deixavam meia pessoa
no chão: despiam-se do que não interessava, três quartos cada para serem
felizes.