31 de agosto de 2015

Sexto

Em meu redor, só vejo as árvores e a entrada em “V” invertido ao fundo da rampa, quase que subterrânea, numa espécie de bunker armado para velhinhos, com fraldas e boiões de fruta para resistir ao apocalipse. Engendravam-se planos de manutenção de fraldas, cimeiras com vista à generalização da aprendizagem do tricotanço; eram feitos discursos pelo Comandante Zé Alfredo a apelar às enfermeiras para a satisfação da sua necessidade de SG Ventil e de “estar com uma moça nova, portanto”. Era um mundo à parte, e eu um turista assustado de cada vez que atravessava a fronteira.

Não estou com ele faz hoje duas semanas. Da última vez que o vi, pareceu-me particularmente feliz, entusiasmado com a possibilidade de poder ter um quarto maior, com uma televisão que satisfizesse as suas necessidades de domingo à tarde e uma cama de rei, “para pessoa e meia!” disse-me. Sempre foi daquelas pessoas que ficava feliz por nada. Provavelmente, isto é apenas suposição minha, afinal, o meu avô sempre foi velho aos meus olhos. Não sei muito sobre rugas, mas deduzo que ser velho é precisamente isso: ficar feliz por nada. Aumenta-se a idade, diminuem-se os consolos: já não há a “potência de antigamente”. Potência para tudo: para a mulher, para as necessidades da mulher, para os filhos, para as necessidades dos filhos, para o trabalho, para as obrigações do trabalho. É-se velho: não há potência para nada. A felicidade está num quarto maior, numa refeição melhorada, num piscar de olho a uma das enfermeiras, num dar as mãos com aquela amiga especial que fala connosco no pátio, sorriso enrugado de cada vez que lhe tocamos as mãos brancas e macias, estranhas àquele corpo acabado e dorido.


A esperança do meu avô era que a cama de rei fosse o suficiente: ele e a amiga teriam de, de alguma forma, transmutar-se para pessoas a três quartos, seres tão bem medidos, tão bem pesados, que não permitiriam intrusões àquele pequeno Éden para pessoa e meia. Subiam na cama e deixavam meia pessoa no chão: despiam-se do que não interessava, três quartos cada para serem felizes. 

29 de agosto de 2015

O Homem do Saco: Carrasco Que Chora

Esta vida de saco na cabeça não é para mim. 
Estou cansado: quero mostrar-me ao mundo e não posso. A minha existência torna-se injustificável quando decido que a de outros tem de chegar ao fim. 
Gostava que vocês me olhassem nos olhos e vissem o meu estado. Não me sinto, ninguém é feliz assim. Ser o homem do saco é ingrato: arregalas os olhos e não és visto. Não queres que te vejam, mas que te olhem, como que se rasgassem as profundezas da tua alma inócua que procura algum alento nos olhos da criança que chora ou da mãe que sofre, agarrada ao peito, sufocada pelo teu saco, pela tua presença avassaladora, destruidora. Tornaram-me ruim, impuseram-me esta condição em troca da minha própria sobrevivência: sou egoísta por achar que a minha vida vale mais que a daqueles cuja cabeça faço rolar, sou a causa para muitos males que seriam evitáveis. Sou humano e quero sobreviver, não posso medir vidas ou pesá-las como se fosse Deus. 
Sei que a minha vida pesa, não sei se mais, não sei se menos: estou preso entre os pesos das vidas que não chegam sequer a ver quem está dentro do saco e o peso da vida que se esconde por detrás de vestes negras e lâminas afiadas. 

27 de agosto de 2015

Tempos Medievais

Parece que ainda foi ontem que o futuro herdeiro ao trono do Reino de Valadín nasceu. Os trovadores escreveram músicas sobre o pequenito desde o primeiro dia, honrando, efusivamente, os servicinhos que a criança fazia e a regularidade dos mesmos, cantando também a respeito dos atropelos às mamas da mãe, demonstrando uma devoradora vontade de rei. “Vai ser dos bons este!” espalharam os plebeus pelas ruas sujas da nação, honrando o pequeno senhor que, por momentos, os fazia esquecer da miséria e imundice em que viviam imersos: limpa-lhes as casas e as almas, o querubim!

O Rei Taldur fez questão de, dois dias antes ao nascimento da criança, se dirigir às catacumbas do castelo e visitar Dénolis, especialista na arte das mezinhas para sultura e hemorroidas e, aparentemente, com um doutoramento em “quero um filho varão, seu traste!”. Taldur vivia angustiado com a possibilidade de o útero da rainha conceber mais uma filha, estava cansado de ceder aos caprichos das outras duas pequenitas, já na flor da idade e com uma propensão especial para passarem dias inteiros a ouvir as mais recentes boy’s bands de neo pop trovadoresco, enchendo os aposentos com retratos em linho dos vocalistas em poses comprometedoras e a exibir os pêlos do peito, descolorados!!!!!!!!!! Desta feita, qualquer porcaria verde num frasco era suficiente para que o reizinho ficasse satisfeito, bastava que a sua senhora emborcasse aquilo e que, se os Deuses quiserem e a porcaria verde ajudar, o pequenote nascesse, gordo e nobre.

A criança cresceu, traquina e senhor de si: um bardino nascido em ouro. Aqui e ali, ia espetando o real bastão nas plebeias mais apetitosas. Numa mulher, agradava-lhe particularmente uma relativa abundância de massa adiposa sob o queixo, juntamente com um par de tornozelos que denunciasse a presença de pilosidades na região inferior da dita fêmea. Mas este não era um senhor qualquer: o agora homem feito fazia questão de usar, sempre que possível, a tripa de porco feita à medida para a real coisinha, pois lera no almanaque juvenil que era esta a mais recente tendência de Valadín, acessório que todo o jovem moderno deveria sempre usar quando pretendesse satisfazer a lascívia típica da idade! Quando se esquecia de a colocar, e estando o serviço já feito, obrigava as pequenas a tomar uma porcaria verde que pedira a Dénolis para resolver a falta de tripa, uma espécie de pílula do dia seguinte do tempo dos reis e das mulheres peludas. Invariavelmente, começaram a surgir os bastardos e, claro está, rolou a cabeça do curandeiro.

A derradeira ironia foi quando, pouco tempo depois, todo o Reino assistiu à morte do herdeiro de Valadín, que morrera de súbita sultura aguda, sem mezinha que a curasse. O rei secara a bica e a rainha nada podia fazer. Morre o rei, carregado de sífilis até aos ossos. Condenada estava a esposa, sem culpa das aventuras do putanheiro do marido, acabando por se ir com o mesmo mal. Ficaram as filhas, não se sabe qual a mais pobre de espírito, que deixaram tudo na mão dos maridos: dois badamecos com os pêlos do peito descolorados.

(Pequena sátira aos costumes e ao fraco discernimento, representando uma variação no tipo de post que tenho vindo a fazer)

26 de agosto de 2015

Quinto

“Bate à porta da próxima”. Este sou eu, muito indignado por ver que a minha mãe não se dignou a, pelo menos, bater à porta antes de entrar no covil do leão, da besta mística, do Deus da física, do palhaço que enrola a língua, do colecionador de isqueiros e corações partidos, do que não se esquece e é esquecido. Qualquer mortal se deveria curvar e esta senhora não o fez: nem sequer bateu à porta. Somos todos imperadores com a mania das grandezas, gostamos que batam à porta e que nos peçam licença. Gostamos que nos mostrem um apreço mesquinho perante a figura da nossa divindade, uma suave lambidela de botas que nos deixe nas nuvens, no mínimo. Depois é ver o espírito exaltar-se de contentamento, com o imperador a vir-se por todo o lado, extasiado: quão bom é o bater da porta. Cortesias da merda.

“Queres vir almoçar para depois irmos visitar o teu avô?”
“O avô? Mas está tudo bem?”
“Está, ele é que pediu que fôssemos lá assim que possível, acho que tem uns assuntos que quer falar contigo e, aparentemente, não pode esperar. Sabes como é: de velho se volta a menino, que se há-de fazer…”. Com o crescimento, é suposto que comece a demonstrar este desdém subtil pelos meus progenitores. Já o tenho vindo a apurar, não quero ficar para trás. Espero um dia igualar a minha mãe, ela entende bastante da poda: ama o paizinho, adora um desprezozinho momentâneo.
“O pai também vem?”
“Não, esse tem mais que fazer. Deixa-o lá com as tretas dele… Quero é que arrumes as tuas coisas agora, está a comida na mesa. O dia vai andando e depressa é noite. Despacha-te, sem favor.”


Ela dizia muitas vezes isto: “depressa é noite”. O meu sistema aprecia este tipo de coisinha, ter umas expressões guardadas para dar umas achegas às pessoas quando quero que elas se despachem ou que façam o que peço. Isto sou eu a querer lembrar-me do que dizer quando quiser apressar alguém. Ou, muito inconscientemente, quando quiser fazer questão de lembrar à pessoa com quem estou a falar que o mundo amanhã acaba: depressa é noite. Um dia é o que tenho, um dia é o que temos. Ai Noite, que depressa vens… Abrir ficheiro: guardar.

23 de agosto de 2015

Sensacional

Indivíduo que se preze é informado. Estar ao corrente da situação é uma das melhores virtudes que o ser humano pode ter. Tal virtude fornece-nos conhecimentos, faz-nos ler mais, o que é bom e saudável, e dá-nos tema de conversa para esse bate-papo que é a vida.
Eu escrevo num blog, logo obrigatoriamente tenho de manter uma determinada rotina de leitura diária, porque se eu não ler frequentemente, acho que deixo de conseguir escrever (ainda bem que não sei o que isso é). Em suma, estou atualizado relativamente ao que se passa no mundo.
Uma das primeiras coisas que se deve saber, é que o slogan da TSF é falso. Tão falso quanto a publicidade da Cornetto, na qual podemos visualizar um rapaz adolescente num concerto do David Carreira. E ele namorisca com uma rapariga, ou seja, não é homossexual. Portanto, a publicidade é falsa. Cresci a ouvir "Tudo o que se passa, passa na TSF", mas enganei-me quando explorei a internet. Não quero criticar a TSF, não. Eu apenas acredito que este slogan foi mal atribuído. Esta lendária frase é do Correio da Manhã.
A notícia mais badalada desta semana é, sem dúvida, o ataque terrorista que se ia dando num TGV francês, que foi impedido por um grupo de indivíduos corajosos. A eles, uma palavra de apreço. Se não fosse a tres grand vitesse dos mesmos ao cair sobre o tipo árabe, haveria grande carnificina naquele Train à Grand Vitesse. A TSF, obviamente desenvolveu detalhadamente a notícia, e foi falando de outros tamas também, mas o Correio da Manhã foi mais longe e viralizou uma outra notícia, intitulada, e passo a citar, "Morrem a fazer sexo em muralha". E sabem que mais, também foi em França!
Esta entra sem dúvida para o meu top 3 de notícias do CM:
Em primeiro lugar, mantém-se, intocável, o enorme drama da vaca que assombrou a aldeia de Moldes, em S.Pedro do Sul. Populares e até mesmo militares da GNR fugiram do animal, que depois acabou por ser capturado... por uma idosa de 65 anos. Passo a citar o título "Fim do pesadelo de Moldes: a vaca brava já foi capturada";
Em segundo lugar, mantém-se, também intocavelmente, um drama que se deu nos Estados Unidos, sendo o título da notícia "Preso por atirar sandes à mulher". No desenvolvimento da notícia o CM fala num indivíduo do Iowa que atirou uma sandes de frango à mulher depois de uma discussão. Imaginem se fosse de mortadela do LIDL. Aí era condenado à morte, por expor o cônjuge a toxicidades.
E, cá está, em terceiro entra a notícia que já referi, ultrapassando a também épica discussão, em Portugal entre vizinhos que acabou por culminar num triplo assassinato, a um mesmo indivíduo. É verdade, caro leitor. Senhor Dionísio, o entrevistado na reportagem, diz ter sido assassinado três vezes.

Concluindo este post, amo-te Correio da Manhã. És o jornal mais sensacional e mais divertido de Portugal. Deve ser por isso que és o tabloide com maior circulação cá. Sem dúvida que tais notícias me fazem arrancar o dinheiro imediatamente da carteira!

Links do Top 3 + Senhor Dionísio:
1 - http://cmtv.sapo.pt/atualidade/detalhe/fim-do-pesadelo-de-moldes-a-vaca-brava-ja-foi-capturada144553500.html
2 - http://www.cmjornal.xl.pt/mundo/detalhe/preso_por_atirar_sandes_a_mulher.html
3 - http://www.cmjornal.xl.pt/insolitos/detalhe/morrem_a_fazer_sexo_em_muralha.html
Senhor Dionísio: http://cmtv.sapo.pt/atualidade/detalhe/discussao-entre-vizinhos-termina-a-facada.html

16 de agosto de 2015

Ferida

Fita, sangue, rosa
Lisa, líquida, espinhosa
Essa cor, pigmento
Esbatido, fraco, dorido, sentido,

Senti-a

Foi essa fita que me marcou muitas
Páginas,
Essas tantas, com água tingida, marcadas
Por hemorragias não coalhadas:
O vermelho ficou azul revoltado;
Voltando o vermelho, o azul falsamente preto é virado;
E o preto solitário viveu no branco nu,
Agora, fachada, mal vestido

Perdoa-me algumas rosas que não cortei,
E todas as coisas que nunca te dei,
Querias tanto e não querias branco!
Só havia brancas, só há brancas, só vejo branco…
Pois tudo é tão claro numa hora:
Agora,
Como é bom pensar que não é tarde,
Mais que pensar no loiro, e viver na luz do verde

Na ferida

Pus um penso lento
Num coração de “homem” pouco verdadeiro,
Que forte me bate e vai explodindo
Esta cor do engano que fui bebendo,
E que, cá dentro, parece não me acabar por inteiro
Numa cicatriz que lembra o sentimento

Agora diz-me, tu, a mim
Qualquer engano:
Sou vermelho, eu, para ti?

13 de agosto de 2015

Apenas Escrevo

Deixem que eu ouça, surdo,
Livre no sonho,
Em tudo

O som do silêncio das estradas em alcatrão,
Das plantações de milho em março,
Inexistentes na totalidade de um todo,
O som do silêncio do que piso, o chão,
Das pessoas sentadas, do seu passo,
Um passo parado, morto, mudo,
O som do silêncio do feixe luminoso, a luz,
Do sol que me aquece a face direita,
Agora já sombra, que me cura o calor,
O som do silêncio de quem viaja e conduz,
De mim, que por eles passo na berma estreita,
Estudante, bom aluno, “escritor”

Oh, mas por favor, não!
Não me encham os ouvidos
Em vão

Não me venham dizer que sou um homem,
Não me elogiem forçosamente,
“Tens muito jeito! És um poeta!”
Se, iludido, não consigo sonhar tão bem
Como outros, poucos, que vão mais à minha frente,
Os que se orgulham, de quase tudo e quase nada, e pintam a tela preta,
E até escrevem pérola sobre branco
Para meu mais que sincero espanto,
E nela vêem tudo e algo mais
Do que sou, mentiroso franco,
Bom ator, somente, um tanto
Não realizado, vivendo em linha reta, e sem ideais

Mas que esses altos nem ninguém me julgue
Se apenas quero ser quem sou,
E, na primeira pessoa, sendo, quase sempre, quem quero ser
Não gritem vermelho ou negro para que mude
Nem tão pouco comentem no vosso juízo que “Ele mudou…”
Pois os ouvidos estão claros, não consigo ver

Primeira e última questão:
Para quê sentir
Se posso escrever o coração?

Nem sei

12 de agosto de 2015

"To be or not to be high, that's the question"

Esqueçam tudo o que ouviram em restaurantes de Sushi e em programas de televisão sobre a saúde. A longevidade dos japoneses deixou de ter qualquer significado para mim. Pelo que vejo, o país com maior Esperança Média de Vida é Inglaterra. Isto porque todos agora questionam hábitos da vida de um homem com 451 anos.

William Shakespeare, o ilustre dramaturgo britânico, que, obviamente, dispensa apresentações (ou não, porque foi um dramaturgo e os dramaturgos encenavam, e não dispensavam, apresentações teatrais), está a ser, no auge das suas 451 primaveras, acusado de ser canábico. É verdade, caro leitor. Cachimbos encontrados em escavações no quintal da sua antiga residência, em Stratford-upon-Avon, terra natal do indivíduo, sugerem, e de que maneira, que o Bardo do rio Avon fumava erva.

Tenho muito medo desta notícia, e sinto que nem havia de estar a escrever isto porque de certa forma estou a promover a notícia, avançada inicialmente pelo Telegraph.
Medo porque temo pelas redes sociais, como bom utilizador das mesmas que sou. A questão é que simplesmente não quero que, depois do Bob Marley, uma pessoa exemplar que fumava erva seja uma espécie de talismã para os adolescentes fumadores.
Simplesmente não quero ver frases como "olhem, até o grande mano Shakes fumava, e vejam no que ele se tornou. Uma LEN-DA. #FuckingLegend ". 2309281128 likes, 563 comentários, imagem de uma absoluta lenda a ser corrompida, sendo a mesma venerada por quem nem sequer conhece uma obra dela.

10 de agosto de 2015

Supertaça

Como adepto de futebol que sou, gostei bastante de ver o jogo de ontem. Não há nada como um bom derby. Sofá aparenta ser longo, cerveja está fresquíssima, entram em campo as equipas, e lá vou eu para as redes sociais rir com os bitaites de alguns indivíduos. Menti em relação à cerveja. Sou jovem, não posso beber álcool em casa. Mas vá, o Santal de morango está fresquíssimo, tornando verdadeira a premissa anterior.

Mas, desenvolvendo a primeira frase desta balela, gostei muito do jogo, porque foi um jogo que não foi uma seca. 90% dos Benfica vs. Sporting que vi foram jogos nos quais o melhor jogador em campo era o João Pestana. É tão irritante quando um jogo sobre o qual recaem tantas expectativas acaba por ser uma bosta em termos de jogabilidade propriamente dita. Felizmente ontem não aconteceu.

Ontem o melhor em campo foi sem dúvida Jorge Jesus. Cada vez o idolatro mais. Além de defender com unhas os dentes, mas mais com os dentes, um dialeto do português, o Amadorês, é sem dúvida um badass. É um indivíduo que quero ver no próximo filme da saga d'Os Mercenários.

Na Bíblia, Deus enviou o profeta Jonas para este adverter os sírios em relação à sua crueldade para com os israelitas. Caso não parassem o derramamento de sangue, uma ira divina abater-se-ia sobre eles. Jonas , contudo, por temer pela própria vida, não realizou essa tarefa, após ter partido para a Síria.
Ontem aconteceu o mesmo, só que o filho de Deus não aprendeu com o pai e ainda fez pior, porque a palmadinha de incentivo nas costas foi dada com Newtons a mais...

Contudo, entidade divina que é entidade divina tem que manter o estilo, quer perca quer ganhe. Como tal, a postura de quem deu a um clube um troféu que não era conquistado há quase dez anos nunca muda, e com toda a naturalidade ficou ali, sentado no banco à espera da entrega do troféu, impávido e sereno. Like a boss!

8 de agosto de 2015

Quarto

Física. Palavra na minha mente. Caneta na minha mão. Vontade no peito.
Sempre fui assim, nunca mudei. Desde pequeno, caneta na mão. A mãe insistia, eu fazia. Nunca me importei, foi um hábito adquirido, foi o crescer intelectual conjugado com a realização individual de que seria maior se a caneta estivesse sempre na minha mão. Nunca a larguei, apenas para acender os cigarros dela. Agora é que não a largo: eu e a Física somos um só. Latejante sensação, cérebro em êxtase, peito em explosão: vontade. Este será o movimento perpétuo de que todos falam, ele existe e é infinito. O movimento perpétuo está aqui, é meu, e este tubo de tinta preta nunca cairá novamente no chão para que eu possa acender cigarros de putas ordinárias destruidoras de isqueiros e memórias.


Fantástico: tanto branco tingido a preto, fiz um bom trabalho. Auto consolação sempre fez parte, sou o meu melhor amigo e isso torna-se claro, ou melhor, preto gatafunhado.

7 de agosto de 2015

Terceiro

Ainda sentia o ressoar do metal a bater forte na parede: parece mesquinho, mas é a verdade. Sou insensível a este ponto de ignorar o que acabara de fazer a alguém que em tempos acolhi nos meus abraços. Pareço um miúdo cismado que não consegue pensar para além daquela lembrança que ficara e que se foi. Entendo a angústia dela, por isso entendam vocês a minha: só queria uma memória e nem isso ela me deu. De imagens mentais está a minha cabeça cheia: são demasiadas. Precisava de sentir o peso do meu isqueiro novamente, usá-lo como catalisador para ela, porque não gosto de esquecer as pessoas. Acho que nunca esqueci ninguém verdadeiramente, não que me lembre. Na verdade, lembro-me de toda a gente, e não há gente que saiba que eu sequer me lembre, porque parece que passei ao lado, mas eles não. Nunca tive ninguém que me passasse ao lado. Se o tentasse sequer, este cérebro que é meu e esta memória que é nossa, faria questão de que me lembrasse, em sonhos mórbidos e surreais, que certa pessoa, num certo tempo, num certo lugar, existiu. Toda a gente existiu. Neste momento, desejava que ela não tivesse existido, pelo menos não desta forma que me ocorre instantaneamente, fruto de um desejo que acabou e de um isqueiro, que não era só um isqueiro, que partiu. Nunca terei a memória que queria dela. Nunca terei novamente o tempo que tão pacientemente lhe dei. A associação mental que queria não existe, esta memória que era nossa partiu-se, tão brutalmente quanto o Zippo prateado.

Chuva pesada, cabeça fria. Abro a porta de casa à medida que agito o capuz e o cabelo: cão vadio que volta sem tesão.
“Tão cedo em casa?”. Olá mãe. Espero que estejas boa. Eu e ela já não namoramos. Fui eu a besta. Desculpa se te prometi que “respeitaria sempre as mulheres e nunca as magoaria de forma alguma”. Muitas vezes prometo coisas impossíveis, já me conheces. Ela partiu-me o isqueiro: o coração está no sítio. Não, não fumo. Fiquei fodido por causa disso, continuo fodido. Se “me magoa a separação”? Não sei, acho que é escusado dramatizar. Só sei que ela me partiu o isqueiro. Não, já disse que não fumo.

“Não tive a última aula da manhã…” Filho pródigo de regresso a casa.

“Fizeste bem em vir, não te quero ver metido em más vidas, tens teste amanhã e acho bem que aproveites o tempo para estudar.”. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Que cansaço. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Advertências clichê. Estudar. Estudar. Não há chuva, cabeça pesada.

“Andaste a fumar?”

“Sim, mas foi a última vez.” Mentir tinha tanta piada.

“Maldita namoradita… é bom que te deixes disso, não deites tudo a perder.”

“Já me deixei.” É bem verdade: maldita namoradita. Ita. Ita. Ita.



Lâmpada Intermitente

Possivelmente, acho que faz sentido poder tocar sem nunca ter tocado ou ver sem sequer ter visto. Acho fascinante esta massa cinzenta que me impele às ideias desmedidas que governam um espírito que toca sem nunca ter tocado e vê sem nunca ter visto, uma mente que se ilumina tão espontaneamente que acaba por extravasar por completo a minha necessidade de conhecer a essência do Universo. Agrada-me a ideia das coisas, das pessoas, do mundo. Supor supera largamente saber: a expectativa é melhor que a constatação, apercebo-me disso com relativa frequência.


Por nunca ter tocado e por nunca ter visto, sinto-me no direito de tocar e ver livremente aqui, neste bolbo cinzento que cresce e morre com as estações, e que continua enterrado e condenado a tocar sem nunca ter tocado e a ver sem nunca ter visto. E ser assim, fazer sem sequer ter feito, é melhor do que fazer efetivamente, porque na prática, eu não tocarei da forma que tocava sem ter tocado e não verei da forma que via sem ter visto. A ignorância é uma bênção de mão dada com o sonho.

6 de agosto de 2015

Segundo

“Para quê estares com rodeios? Para quê tanta necessidade de justificação perante o que está irremediado, independentemente daquilo que digas? Já não te importas, vejo-o nos teus olhos. Mostras-me que te importas, queres realmente importar-te porque achas que isso faz de ti alguém correto, sempre foste assim, sempre serás. Não precisas de ser santo, não comigo. As coisas são como são, tu és como és e eu sou como sou. A realidade é essa: nada mais nos une”. Fiquei completamente nu naquele momento, sem saber se olhava para ela ou se a desviava o olhar para as minhas mãos, também elas nuas e especialmente trémulas: aparentemente, são onze horas. Dois minutos pareceram anos e duas palavras dela foram como que epopeias na minha cabeça e tiros na minha alma. Alívio estranho este: estar cravejado de balas e sentir-me ligeiramente mais feliz do que quando comecei a conversa. Seria evidente, anteriormente apercebera-me que assim seria, mas nunca pensei que fosse tão leve, nunca me ocorreu o pensamento de que há correntes que pesam mais que outras. Esta corrente, afinal, pesava mais do que aquilo que eu julgava.


“Dá-me o meu isqueiro de volta. Nenhuma chama que seja minha acenderá novamente um cigarro que seja teu”. Vi a beata a ir pelo ar, juntamente com o isqueiro que bateu com estrondo na parede. O meu melhor Zippo arruinado e ela a sair de rompante pelas traseiras do edifício branco. Consigo, levou o ensurdecedor bater da porta, juntamente com a última nuvem de fumo, do último cigarro aceso pela chama do Zippo prateado. Sua puta.

5 de agosto de 2015

Michel, tu va tomber!

Chegamos àquela altura do ano. Acho que sabem do que estou a falar. Não, a TVI ainda não anunciou mais uma edição da Casa dos Segredos. E também não, a Ana Malhoa ainda não lançou novo videoclip ridículo. Refiro-me ao belíssimo período de tempo que Portugal agora atravessa.

O cantor Dino Meira enfatiza-o bem: "meu querido mês de Agosto"(sim, escrevi agosto com letra maiúscula porque a faixa em questão foi lançada antes do novo acordo ortográfico, não digam que escrevi mal. Estou a brincar, sei que não repararam, porque na verdade ninguém quer saber, exceto nós, adolescentes com exame de Português no 12º ano).
Prosseguindo. Este mês é mesmo querido. Para qualquer adolescente, queridíssimo, sendo sinónimo de férias. Há muito calor, boas temperaturas, e... Emigrantes. Sim, este texto é sobre a altura do ano que marca o regresso dos mesmos a casa! Finalmente escrevi-o diretamente!

Esta altura do ano é caracterizada, acima de tudo, pela variedade de matrículas que se observam, pelo que a frase que mais profiro no mês de agosto é "de que país é aquela matrícula?". Oh, desculpem, não é. A frase mais dita é "Está uma tineira do caraças". Essa sim, é the real deal.
Nota também para as aparelhagens sonoras das viaturas dos emigrantes, que se fazem ouvir em todas as ruas de todas as cidades, sejam elas grandes metrópoles ou apenas bonitos aglomerados de habitações sem qualquer ex libris. É nessas alturas que me apercebo da grandeza da televisão portuguesa. Obrigado TVI Internacional, SIC Internacional, e RTP Internacional por darem a conhecer a todo o mundo programas como o Somos Portugal que promovem precisamente o estilo de música (e consequentemente os artistas) que soa nas colunas das viaturas.
As viaturas vêm de todo o lado, mas as viaturas francesas estão claramente em vantagem. Para avaliar tal parâmetro, basta uma pessoa deslocar-se ao hipermercado local e fazer matrícula-catching no parque de estacionamento. Aquando da prática de tal atividade, é natural que se ouça a frase "Michel, tu va tomber" e também a clássica "Oh mon Dieu de la France". É tão bom ver uma modesta cidade a "internacionalizar-se".

Este período do ano remete-nos para as Invasões Francesas, só que com algumas diferenças. Algumas.
No início do século XIX franceses vieram para Portugal guerrilhar. Os gauleses vestiam trajes bélicos adequados, com exagerado detalhe em toda a indumentária, feitos artesanalmente em casas de costura parisienses chiques, e montavam cavalos que transpiravam elegância, porque eram extremamente bem tratados. Oh, tres jolie! 

Já hoje em dia revelam-se ligeiras diferenças. Os indivíduos vêm para o extremo Sudoeste da Europa para conviver amigavelmente com lusos, vestidos com camisolas do Cristiano Ronaldo dentro de um Renault Clio. Ou Opel Corsa. Normalmente com vidros fumados. Admito que generalizei demasiado agora nos carros, mas é uma balela que tem um fundinho de verdade. Com base nas camisolas de Ronaldo pode-se estabelecer uma hierarquia: se for do Real Madrid, o indivíduo em questão é "menos emigrante" do que um outro que possua uma camisola da seleção das quinas, mas isso às vezes não significa nada, porque o traje do invasor gaulês de hoje em dia também pode ser caracterizado pela Cruz Latina ao peito, pelas meias por dentro das sandálias, e também pelo logótipo da seleção nacional no vidro traseiro do respetivo automóvel. Qual Esfera Armilar qual quê, o povo quer é bola! Michel, jouer le ballon! Regardez comme Ronaldo! 

Apesar de todas estas balelas, é de louvar o patriotismo dos que estão lá fora. Em termos de amor à pátria, há muitos que estão lá fora que se agigantam perante certos revoltados que por aqui vagueiam. A todos os emigrantes, um bem-haja!

NOTA:
Apesar de conter vocabulário de 3 idiomas diferentes, este texto não foi escrito pelo Emanuel. Mesmo que alguém o insinuasse seria mentira, porque estão a decorrer os ensaios para o Somos Portugal deste fim de semana e o artista não tem tempo para mais nada.


Longos São Os Passos Para Os Lugares Que Estão Perto

Injustificavelmente inerte: um estado de espírito em estado de coisa nenhuma.

Hoje sou assim, quer dizer, pelo menos hoje desceu em mim a consciência de que sou assim mesmo. Apercebi-me, por fim, que o meu propósito é vago e despropositado. Sozinho ou acompanhado, de uma ou de outra forma caminho rumo ao vale da sombra e destinado ao esquecimento e a esquecer-me do propósito que viver sem propósito teve. E que bem que saberá: tamanha inconsciência, tamanho estado inerte por consciencializar, eternamente inconsciencializável pela própria natureza de viver na plenitude do vale da sombra.


Hoje sou assim e amanhã desejo esquecer que o sou, porque sei que amanhã ser inerte não será bonito, nem feio, nem outra coisa qualquer. Amanhã, tal qual como hoje, tudo isto se resume a coisa nenhuma. É o vazio que engole o espaço por ocupar, como se todas as coisas tivessem que caber num ponto microscopicamente desenhado, comprimido por nada. É, sou, o ponto inerte irreversivelmente suspenso, à espera do vale da sombra que não tarda.

Primeiro

Capítulo inicial de uma história banal e sem rumo.


“Dá-me deste lume que apaga a vida, não me dês mais nada”. Foi o pedido que ela fez no instante em que se preparava para acender o último de muitos cigarros, fumados à sombra de uma sombra ainda maior; e ver aquilo, dito pelo olhar irónico dela, de quem goza com a própria condição e acena, simultaneamente, à natureza matreira do destino que, como qualquer outra coisa que tem imensa piada, a fazia rir como uma criança, despreocupada e ausente da sua condição fragilizada. Naquele olhar, já não se via qualquer tipo de receio em enfrentar o lume que lhe extinguia o pavio de vela aromática, toda ela era cera pelo prato e a sumir-se pelas bordas.

“Gosto tanto quando sorris”. Foi o que o eu disse, com o espírito atropelado por 13 pensamentos diferentes e uma língua completamente torcida que só lhe soube dizer “Gosto tanto quando sorris”. A verdadeira piada não é o destino: a verdadeira piada é a minha língua que se dobra toda quando o Universo requer de mim que seja sábio e ponderado, que lide apropriadamente com estas situações e que saiba aliar a transmissão da perspetiva de “algo melhor que há-de vir” à necessidade de demonstrar a imensidão dos meus sentimentos e a profundeza da relação das pessoas com as pessoas, neste caso, bela merda ter dito “gosto tanto quando sorris”, que vago, que despropositado.

“Odeio-me neste momento. Odeio o meu sorriso. Odeio estes olhos tão escuros e sem vida. Odeio estas mãos decadentes e sem força. Odeio a minha falta de tudo. Odeio a minha vontade de nada. Só este lume que me apaga a vida me dá algum alento. Ele e tu, que aparentemente gostas tanto quando sorrio. Gostas? Gostavas? Não me dês tudo quando sei que não mereço nada. Este sorriso não sorri como dizes, este sorriso morre de cada vez que me dizes isso. Não gosto dele, não gostes também”.


Via o reflexo dela que se olhava no espelho, enquanto as lâminas afiadas lhe saiam pela boca. Uma palavra é pior que uma lâmina e aqueles cortes eram fundos e limpos, e ela uma guilhotina ambulante: letal. Maldita língua enrolada, sou fraco e já o sabia, sou fraco e ela também o vê.