“Para quê estares com rodeios? Para quê tanta necessidade de
justificação perante o que está irremediado, independentemente daquilo que
digas? Já não te importas, vejo-o nos teus olhos. Mostras-me que te importas,
queres realmente importar-te porque achas que isso faz de ti alguém correto,
sempre foste assim, sempre serás. Não precisas de ser santo, não comigo. As coisas
são como são, tu és como és e eu sou como sou. A realidade é essa: nada mais
nos une”. Fiquei completamente nu naquele momento, sem saber se olhava para ela
ou se a desviava o olhar para as minhas mãos, também elas nuas e especialmente
trémulas: aparentemente, são onze horas. Dois minutos pareceram anos e duas
palavras dela foram como que epopeias na minha cabeça e tiros na minha alma.
Alívio estranho este: estar cravejado de balas e sentir-me ligeiramente mais
feliz do que quando comecei a conversa. Seria evidente, anteriormente
apercebera-me que assim seria, mas nunca pensei que fosse tão leve, nunca me
ocorreu o pensamento de que há correntes que pesam mais que outras. Esta
corrente, afinal, pesava mais do que aquilo que eu julgava.
“Dá-me o meu isqueiro de volta. Nenhuma chama que seja minha
acenderá novamente um cigarro que seja teu”. Vi a beata a ir pelo ar,
juntamente com o isqueiro que bateu com estrondo na parede. O meu melhor Zippo
arruinado e ela a sair de rompante pelas traseiras do edifício branco. Consigo,
levou o ensurdecedor bater da porta, juntamente com a última nuvem de fumo, do
último cigarro aceso pela chama do Zippo prateado. Sua puta.
Sem comentários:
Enviar um comentário