6 de agosto de 2015

Segundo

“Para quê estares com rodeios? Para quê tanta necessidade de justificação perante o que está irremediado, independentemente daquilo que digas? Já não te importas, vejo-o nos teus olhos. Mostras-me que te importas, queres realmente importar-te porque achas que isso faz de ti alguém correto, sempre foste assim, sempre serás. Não precisas de ser santo, não comigo. As coisas são como são, tu és como és e eu sou como sou. A realidade é essa: nada mais nos une”. Fiquei completamente nu naquele momento, sem saber se olhava para ela ou se a desviava o olhar para as minhas mãos, também elas nuas e especialmente trémulas: aparentemente, são onze horas. Dois minutos pareceram anos e duas palavras dela foram como que epopeias na minha cabeça e tiros na minha alma. Alívio estranho este: estar cravejado de balas e sentir-me ligeiramente mais feliz do que quando comecei a conversa. Seria evidente, anteriormente apercebera-me que assim seria, mas nunca pensei que fosse tão leve, nunca me ocorreu o pensamento de que há correntes que pesam mais que outras. Esta corrente, afinal, pesava mais do que aquilo que eu julgava.


“Dá-me o meu isqueiro de volta. Nenhuma chama que seja minha acenderá novamente um cigarro que seja teu”. Vi a beata a ir pelo ar, juntamente com o isqueiro que bateu com estrondo na parede. O meu melhor Zippo arruinado e ela a sair de rompante pelas traseiras do edifício branco. Consigo, levou o ensurdecedor bater da porta, juntamente com a última nuvem de fumo, do último cigarro aceso pela chama do Zippo prateado. Sua puta.

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