10 de novembro de 2015

Morte

Dobro a folha a meio e quero atirar,
Está amarrotada, mas acredito, vou acertar.
Nas costas, tem um poema de pequeno calibre em cada
Bala, ou até mesmo nada.

Atenta, a letra não é pequena e dispara a cada linha onde vais,
Melhoro a caligrafia, miro ainda mais,
É cegueira que me faz mover.
Ah! Enganei-me neste esforço, começa a chover
Na folha, uma rasura aqui e acolá,
Amarrotada, mas seca para já.

Levanta a cabeça
E compõe o capacete, rapaz,
Olha
E não tenhas pressa,
Joga as cartas, bate na mesa e nunca voltes atrás,
E olha o alvo, dama de copas, está escrita na folha,
E vê o que fazes:
Parte, volta a levantar;
Dá, volta a compor.
Volta a olhar a mão e joga trunfos e ases,
E liga a luz, para de jogar.
E pega na arma preta da dor.
E compõe a escrita, rapaz,
Está bem, em ti o ego,
Melhor, em mim,
Assim.
Não deixes que ela te veja por aí,
E, moço, na escrita, leigo, fere,
Para de ser meigo e
Escreve!
Falhaste…
Olhaste e não viste,
Estavas cego.

Agora,
Tu?
Mataste-me, abriste-me a mim,
E ao envelope cinzento
Desta carta que te enviei, e, por fim,
Doutora do sentimento,
Fazes a tua autópsia,
Lendo-a e relendo-a,
Procurando inúmeras mentiras, cá dentro do teu paciente.
Eu, de anatomia deficiente,
Concedo-te mais um desejo e
Finjo para ti!
Toma
Ódio,
Desprezo,
Indiferença,
E do que houver e restar de mau:
Tudo.

Sim,

É verdade que luto,
Sou soldado, valete de espadas, falhado,
Neste campo, de linhas e palavras, riscado
E tudo o que mato, mentindo,
É preto e encarnado,
Criando sangue,
Criando o coração.

é amor.

Disse a verdade a tempo,
Fiquei sem balas.




1 de novembro de 2015

Sobre Aquela Que Sorri

No momento em que olho para aquela criança a gemer de alegria e a pegar no pequeno cigarrinho que, de mansinho, tirava do maço, senti a esperança na humanidade a ir-se, junto com o fumo daquela nuvem tão fresca e cheia de vida, repleta com a essência jovem e o espírito rebelde da inocência por explorar. A pequena esboçava um sorriso, e eu esforçava-me por entender. 
Não sou exemplar: ninguém o é. Damos poder a coisas assim, pequenas como nada, para levar consigo aquilo que nos enchia por dentro. As pessoas fumam, bebem, comem, engasgam-se. Às vezes, tenho pena de não saber mais sobre vícios para poder olhar nos olhos da menina sorridente e ver quando ela se engasga. Repito: não sou exemplo, ninguém o é.
É nos outros que sinto o eu a reconhecer as falhas que também serão minhas. Quando falho, da mesma forma que os outros fazem, esqueço-me do eu que tanto julgou e olhou tão escandalosamente. Aí, já sou "os outros", tão feliz, de copo cheio e espírito vazio. Saúde.