29 de agosto de 2015

O Homem do Saco: Carrasco Que Chora

Esta vida de saco na cabeça não é para mim. 
Estou cansado: quero mostrar-me ao mundo e não posso. A minha existência torna-se injustificável quando decido que a de outros tem de chegar ao fim. 
Gostava que vocês me olhassem nos olhos e vissem o meu estado. Não me sinto, ninguém é feliz assim. Ser o homem do saco é ingrato: arregalas os olhos e não és visto. Não queres que te vejam, mas que te olhem, como que se rasgassem as profundezas da tua alma inócua que procura algum alento nos olhos da criança que chora ou da mãe que sofre, agarrada ao peito, sufocada pelo teu saco, pela tua presença avassaladora, destruidora. Tornaram-me ruim, impuseram-me esta condição em troca da minha própria sobrevivência: sou egoísta por achar que a minha vida vale mais que a daqueles cuja cabeça faço rolar, sou a causa para muitos males que seriam evitáveis. Sou humano e quero sobreviver, não posso medir vidas ou pesá-las como se fosse Deus. 
Sei que a minha vida pesa, não sei se mais, não sei se menos: estou preso entre os pesos das vidas que não chegam sequer a ver quem está dentro do saco e o peso da vida que se esconde por detrás de vestes negras e lâminas afiadas. 

Sem comentários:

Enviar um comentário