5 de agosto de 2015

Primeiro

Capítulo inicial de uma história banal e sem rumo.


“Dá-me deste lume que apaga a vida, não me dês mais nada”. Foi o pedido que ela fez no instante em que se preparava para acender o último de muitos cigarros, fumados à sombra de uma sombra ainda maior; e ver aquilo, dito pelo olhar irónico dela, de quem goza com a própria condição e acena, simultaneamente, à natureza matreira do destino que, como qualquer outra coisa que tem imensa piada, a fazia rir como uma criança, despreocupada e ausente da sua condição fragilizada. Naquele olhar, já não se via qualquer tipo de receio em enfrentar o lume que lhe extinguia o pavio de vela aromática, toda ela era cera pelo prato e a sumir-se pelas bordas.

“Gosto tanto quando sorris”. Foi o que o eu disse, com o espírito atropelado por 13 pensamentos diferentes e uma língua completamente torcida que só lhe soube dizer “Gosto tanto quando sorris”. A verdadeira piada não é o destino: a verdadeira piada é a minha língua que se dobra toda quando o Universo requer de mim que seja sábio e ponderado, que lide apropriadamente com estas situações e que saiba aliar a transmissão da perspetiva de “algo melhor que há-de vir” à necessidade de demonstrar a imensidão dos meus sentimentos e a profundeza da relação das pessoas com as pessoas, neste caso, bela merda ter dito “gosto tanto quando sorris”, que vago, que despropositado.

“Odeio-me neste momento. Odeio o meu sorriso. Odeio estes olhos tão escuros e sem vida. Odeio estas mãos decadentes e sem força. Odeio a minha falta de tudo. Odeio a minha vontade de nada. Só este lume que me apaga a vida me dá algum alento. Ele e tu, que aparentemente gostas tanto quando sorrio. Gostas? Gostavas? Não me dês tudo quando sei que não mereço nada. Este sorriso não sorri como dizes, este sorriso morre de cada vez que me dizes isso. Não gosto dele, não gostes também”.


Via o reflexo dela que se olhava no espelho, enquanto as lâminas afiadas lhe saiam pela boca. Uma palavra é pior que uma lâmina e aqueles cortes eram fundos e limpos, e ela uma guilhotina ambulante: letal. Maldita língua enrolada, sou fraco e já o sabia, sou fraco e ela também o vê. 




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