Injustificavelmente inerte: um estado de espírito em estado
de coisa nenhuma.
Hoje sou assim, quer dizer, pelo menos hoje desceu em mim a
consciência de que sou assim mesmo. Apercebi-me, por fim, que o meu propósito é
vago e despropositado. Sozinho ou acompanhado, de uma ou de outra forma caminho
rumo ao vale da sombra e destinado ao esquecimento e a esquecer-me do propósito
que viver sem propósito teve. E que bem que saberá: tamanha inconsciência,
tamanho estado inerte por consciencializar, eternamente inconsciencializável pela
própria natureza de viver na plenitude do vale da sombra.
Hoje sou assim e amanhã desejo esquecer que o sou, porque
sei que amanhã ser inerte não será bonito, nem feio, nem outra coisa qualquer.
Amanhã, tal qual como hoje, tudo isto se resume a coisa nenhuma. É o vazio que
engole o espaço por ocupar, como se todas as coisas tivessem que caber num
ponto microscopicamente desenhado, comprimido por nada. É, sou, o ponto inerte
irreversivelmente suspenso, à espera do vale da sombra que não tarda.
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