31 de agosto de 2015

Sexto

Em meu redor, só vejo as árvores e a entrada em “V” invertido ao fundo da rampa, quase que subterrânea, numa espécie de bunker armado para velhinhos, com fraldas e boiões de fruta para resistir ao apocalipse. Engendravam-se planos de manutenção de fraldas, cimeiras com vista à generalização da aprendizagem do tricotanço; eram feitos discursos pelo Comandante Zé Alfredo a apelar às enfermeiras para a satisfação da sua necessidade de SG Ventil e de “estar com uma moça nova, portanto”. Era um mundo à parte, e eu um turista assustado de cada vez que atravessava a fronteira.

Não estou com ele faz hoje duas semanas. Da última vez que o vi, pareceu-me particularmente feliz, entusiasmado com a possibilidade de poder ter um quarto maior, com uma televisão que satisfizesse as suas necessidades de domingo à tarde e uma cama de rei, “para pessoa e meia!” disse-me. Sempre foi daquelas pessoas que ficava feliz por nada. Provavelmente, isto é apenas suposição minha, afinal, o meu avô sempre foi velho aos meus olhos. Não sei muito sobre rugas, mas deduzo que ser velho é precisamente isso: ficar feliz por nada. Aumenta-se a idade, diminuem-se os consolos: já não há a “potência de antigamente”. Potência para tudo: para a mulher, para as necessidades da mulher, para os filhos, para as necessidades dos filhos, para o trabalho, para as obrigações do trabalho. É-se velho: não há potência para nada. A felicidade está num quarto maior, numa refeição melhorada, num piscar de olho a uma das enfermeiras, num dar as mãos com aquela amiga especial que fala connosco no pátio, sorriso enrugado de cada vez que lhe tocamos as mãos brancas e macias, estranhas àquele corpo acabado e dorido.


A esperança do meu avô era que a cama de rei fosse o suficiente: ele e a amiga teriam de, de alguma forma, transmutar-se para pessoas a três quartos, seres tão bem medidos, tão bem pesados, que não permitiriam intrusões àquele pequeno Éden para pessoa e meia. Subiam na cama e deixavam meia pessoa no chão: despiam-se do que não interessava, três quartos cada para serem felizes. 

Sem comentários:

Enviar um comentário