“Bate à porta da próxima”. Este sou eu, muito indignado por
ver que a minha mãe não se dignou a, pelo menos, bater à porta antes de entrar
no covil do leão, da besta mística, do Deus da física, do palhaço que enrola a
língua, do colecionador de isqueiros e corações partidos, do que não se esquece
e é esquecido. Qualquer mortal se deveria curvar e esta senhora não o fez: nem
sequer bateu à porta. Somos todos imperadores com a mania das grandezas,
gostamos que batam à porta e que nos peçam licença. Gostamos que nos mostrem um
apreço mesquinho perante a figura da nossa divindade, uma suave lambidela de
botas que nos deixe nas nuvens, no mínimo. Depois é ver o espírito exaltar-se
de contentamento, com o imperador a vir-se por todo o lado, extasiado: quão bom
é o bater da porta. Cortesias da merda.
“Queres vir almoçar para depois irmos visitar o teu avô?”
“O avô? Mas está tudo bem?”
“Está, ele é que pediu que fôssemos lá assim que possível,
acho que tem uns assuntos que quer falar contigo e, aparentemente, não pode
esperar. Sabes como é: de velho se volta a menino, que se há-de fazer…”. Com o
crescimento, é suposto que comece a demonstrar este desdém subtil pelos meus
progenitores. Já o tenho vindo a apurar, não quero ficar para trás. Espero um
dia igualar a minha mãe, ela entende bastante da poda: ama o paizinho, adora um
desprezozinho momentâneo.
“O pai também vem?”
“Não, esse tem mais que fazer. Deixa-o lá com as tretas
dele… Quero é que arrumes as tuas coisas agora, está a comida na mesa. O dia
vai andando e depressa é noite. Despacha-te, sem favor.”
Ela dizia muitas vezes isto: “depressa é noite”. O meu
sistema aprecia este tipo de coisinha, ter umas expressões guardadas para dar
umas achegas às pessoas quando quero que elas se despachem ou que façam o que
peço. Isto sou eu a querer lembrar-me do que dizer quando quiser apressar
alguém. Ou, muito inconscientemente, quando quiser fazer questão de lembrar à
pessoa com quem estou a falar que o mundo amanhã acaba: depressa é noite. Um
dia é o que tenho, um dia é o que temos. Ai Noite, que depressa vens… Abrir ficheiro: guardar.
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