Possivelmente, acho que faz sentido poder tocar sem nunca
ter tocado ou ver sem sequer ter visto. Acho fascinante esta massa cinzenta que
me impele às ideias desmedidas que governam um espírito que toca sem nunca ter
tocado e vê sem nunca ter visto, uma mente que se ilumina tão espontaneamente
que acaba por extravasar por completo a minha necessidade de conhecer a
essência do Universo. Agrada-me a ideia das coisas, das pessoas, do mundo. Supor
supera largamente saber: a expectativa é melhor que a constatação, apercebo-me
disso com relativa frequência.
Por nunca ter tocado e por nunca ter visto, sinto-me no
direito de tocar e ver livremente aqui, neste bolbo cinzento que cresce e morre
com as estações, e que continua enterrado e condenado a tocar sem nunca ter
tocado e a ver sem nunca ter visto. E ser assim, fazer sem sequer ter feito, é
melhor do que fazer efetivamente, porque na prática, eu não tocarei da forma
que tocava sem ter tocado e não verei da forma que via sem ter visto. A
ignorância é uma bênção de mão dada com o sonho.
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