Deixem que
eu ouça, surdo,
Livre no
sonho,
Em tudo
O som do
silêncio das estradas em alcatrão,
Das
plantações de milho em março,
Inexistentes
na totalidade de um todo,
O som do
silêncio do que piso, o chão,
Das pessoas
sentadas, do seu passo,
Um passo
parado, morto, mudo,
O som do
silêncio do feixe luminoso, a luz,
Do sol que
me aquece a face direita,
Agora já
sombra, que me cura o calor,
O som do
silêncio de quem viaja e conduz,
De mim, que
por eles passo na berma estreita,
Estudante, bom
aluno, “escritor”
Oh, mas por
favor, não!
Não me
encham os ouvidos
Em vão
Não me
venham dizer que sou um homem,
Não me
elogiem forçosamente,
“Tens muito jeito!
És um poeta!”
Se, iludido,
não consigo sonhar tão bem
Como outros,
poucos, que vão mais à minha frente,
Os que se
orgulham, de quase tudo e quase nada, e pintam a tela preta,
E até
escrevem pérola sobre branco
Para meu
mais que sincero espanto,
E nela vêem
tudo e algo mais
Do que sou,
mentiroso franco,
Bom ator,
somente, um tanto
Não
realizado, vivendo em linha reta, e sem ideais
Mas que esses
altos nem ninguém me julgue
Se apenas
quero ser quem sou,
E, na
primeira pessoa, sendo, quase sempre, quem quero ser
Não gritem
vermelho ou negro para que mude
Nem tão
pouco comentem no vosso juízo que “Ele mudou…”
Pois os ouvidos estão claros, não consigo ver
Primeira e
última questão:
Para quê sentir
Se posso
escrever o coração?
Nem sei
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