13 de agosto de 2015

Apenas Escrevo

Deixem que eu ouça, surdo,
Livre no sonho,
Em tudo

O som do silêncio das estradas em alcatrão,
Das plantações de milho em março,
Inexistentes na totalidade de um todo,
O som do silêncio do que piso, o chão,
Das pessoas sentadas, do seu passo,
Um passo parado, morto, mudo,
O som do silêncio do feixe luminoso, a luz,
Do sol que me aquece a face direita,
Agora já sombra, que me cura o calor,
O som do silêncio de quem viaja e conduz,
De mim, que por eles passo na berma estreita,
Estudante, bom aluno, “escritor”

Oh, mas por favor, não!
Não me encham os ouvidos
Em vão

Não me venham dizer que sou um homem,
Não me elogiem forçosamente,
“Tens muito jeito! És um poeta!”
Se, iludido, não consigo sonhar tão bem
Como outros, poucos, que vão mais à minha frente,
Os que se orgulham, de quase tudo e quase nada, e pintam a tela preta,
E até escrevem pérola sobre branco
Para meu mais que sincero espanto,
E nela vêem tudo e algo mais
Do que sou, mentiroso franco,
Bom ator, somente, um tanto
Não realizado, vivendo em linha reta, e sem ideais

Mas que esses altos nem ninguém me julgue
Se apenas quero ser quem sou,
E, na primeira pessoa, sendo, quase sempre, quem quero ser
Não gritem vermelho ou negro para que mude
Nem tão pouco comentem no vosso juízo que “Ele mudou…”
Pois os ouvidos estão claros, não consigo ver

Primeira e última questão:
Para quê sentir
Se posso escrever o coração?

Nem sei

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