30 de outubro de 2015

Naquela Praia Encoberta

Pintava-te com o sal
Que brota no rebentar sereno
Deste longo azul,
Gigante e
Tranquilo.
Afrodite toda nua,
Posídon vai à loucura e
Já ninguém o atura.
Os Deuses também
Gemem
Os Deuses também
Querem
Pegar em Afrodite toda nua
Pintá-la a sal à luz das estrelas
E da lua.
De onde vens tu,
Afrodite toda nua?
De onde vem
O sal que te pintou
E o azul que me dá esta
Secura?
Por mais que queira o azul
E gema
Como os Deuses fazem,
Não me queres tu,
Afrodite toda nua
Enterrada e pintada a sal
Nessa praia que é só
Tua.
Desenterra-te.

(Devaneios de uma noite de Verão)

28 de outubro de 2015

Soberbamente Só

De tanto querer, já nem sei para onde me virar. Nada está claro, e eu ando às turras pelas portas deste quarto subterrâneo. Podias ser tu, assim muito subtilmente, a abrir-me a porta. Aviso-te que estou bem fundo, bem fechado. Passo 1: pega na pá; cava até sentires o metal ressoar no metal. Passo 2: existe uma chave na ranhura da porta. Pega nela e dá-lhe um beijo, longo e sentido, besunta-a com o teu néctar abençoado de deusa. Ainda não acabou. Passo 3: coloca a chave de novo na ranhura, tão subtilmente como quando começaste. Roda a maçaneta, agora com força. Usa cada músculo de ti.
Ardem-me os olhos ao ver-te entrar; queima-se-me a pele da face e os lábios. Não estou habituado a ver luz: o quarto era escuro, não queimava, nem uma frincha. De tanto bater de frente pelo meio do vazio, já não sei o que é sentir calor na face ou nos lábios.

Se calhar devias limpar as mãos e tapar de novo o buraco. 

13 de outubro de 2015

Oitavo

“Quando é que aconteceu?”
Foi o que perguntei, na tentativa de recolher os pedaços do velho que chorava na minha beira e que morria a cada suspiro que dava. Precisava de saber o impacto que tudo aquilo estava a ter sobre ele, precisava de compreeender o que sente alguém que morre no mesmo instante em que perde tudo o que lhe dava alento, levando consigo o sentido da existência.
Histórias de Zippos prateados são comuns, tão comuns quanto o próprio ar que lhe falta. Maçãs no ar são raras, tão raras quanto os 3/4 que foram enterrados na terra que piso. Falta-lhe tudo: chora por não ter nada.
Num gesto solene, agarrou-me a mão direita. Senti-lhe o peso e a amargura, o gesto sem sentido, o afeto perdido e a esperança fugida. Tão inócuo.
“A razão diz-me que foi ontem, filho. O coração mente: o ontem hoje repete-se. Amanhã será como ontem, assim como hoje. Todos os dias a perco, da mesma forma absurda e sem nexo. Deus prega-me partidas, e este sou a viver os dias que me faltam como se fossem o mesmo. Estou condenado a não esquecer”.

Chorei. Chorei tão desalmadamente quanto o querubim que perde o balão de hélio verde; berrei tão ferozmente quanto a criança que nasce do sufoco para a existência. Não sei o que me deu: foi aquele olhar, ou a falta dele. Estava contagiado pela constatação óbvia da realidade ingrata e sublime: são as lágrimas que não guardas que lembram nos homens a falta de alguma coisa. Era a lembrança, e o choro, e o não esquecimento. 

4 de outubro de 2015

Fontes

Voltei a encontrar o que me faltava,
O que há muito estava perdido,
Assim pensava eu, prisioneiro rendido,
O que quero e não queria, o que a ninguém dava:
Aquilo que se escreve, as palavras,
Com o seu tom e cor mais que diferente
Pensando na ideia feliz mas maldita e doente
De já nem me questionar sobre as que foram ditas.
A resposta sou eu e mais alguém.
Espero estar correto, já que a razão não está morta,
E que a verdade calque a mentira e não fique torta,
Que essas duas se unam e vivam em mim mas tu também.

E questiono, sem a mínima exceção, todos vocês
Exatamente o mesmo que vocês a mim:
O porquê desse sentimento, do seu início e do seu fim,
E a irrealidade do seu crescer numa tamanha rapidez.

Se tudo o que sinto e não sinto
Sinto e não sinto à flor da pele, quase do nada,
Então, por enquanto, pouco faço eu nesta vida
E menos ainda vivo, mas não minto:
Diga-se que fiz as malas e deixei esse lugar de que não falas
Ao encontrar uma fonte de oxigénio e água fresca pura
Que procurei, esperançoso de não encontrar, e acredito ser segura,
Pois quis ser ignorante e não comer os degraus das escadas
Mas eu consegui subir e, agora, aqui me encontro
Tenho vontade de dar um passo saltando deste telhado,
Cair na realidade e por ti ser achado
E, aí, esperar vivamente pelo que me aguarda, o futuro.

Será que ainda sinto o açúcar desta amargura?
Sim, eu sinto
Não, afinal não sinto, eu minto
Porque eu não sou mole e ela não é dura.

Uma pergunta simples para nós os dois:
Se o tempo voltasse,
Farias o mesmo?

Prefiro responder depois.