“Quando é que aconteceu?”
Foi o que perguntei, na tentativa de recolher
os pedaços do velho que chorava na minha beira e que morria a cada suspiro que
dava. Precisava de saber o impacto que tudo aquilo estava a ter sobre ele,
precisava de compreeender o que sente alguém que morre no mesmo instante em que
perde tudo o que lhe dava alento, levando consigo o sentido da existência.
Histórias de Zippos prateados são comuns, tão
comuns quanto o próprio ar que lhe falta. Maçãs no ar são raras, tão raras
quanto os 3/4 que foram enterrados na terra que piso. Falta-lhe tudo: chora por
não ter nada.
Num gesto solene, agarrou-me a mão direita. Senti-lhe
o peso e a amargura, o gesto sem sentido, o afeto perdido e a esperança fugida.
Tão inócuo.
“A razão diz-me que foi ontem, filho. O
coração mente: o ontem hoje repete-se. Amanhã será como ontem, assim como hoje.
Todos os dias a perco, da mesma forma absurda e sem nexo. Deus prega-me
partidas, e este sou a viver os dias que me faltam como se fossem o mesmo.
Estou condenado a não esquecer”.
Chorei. Chorei tão desalmadamente quanto o
querubim que perde o balão de hélio verde; berrei tão ferozmente quanto a criança
que nasce do sufoco para a existência. Não sei o que me deu: foi aquele olhar,
ou a falta dele. Estava contagiado pela constatação óbvia da realidade ingrata
e sublime: são as lágrimas que não guardas que lembram nos homens a falta de
alguma coisa. Era a lembrança, e o choro, e o não esquecimento.