7 de agosto de 2015

Terceiro

Ainda sentia o ressoar do metal a bater forte na parede: parece mesquinho, mas é a verdade. Sou insensível a este ponto de ignorar o que acabara de fazer a alguém que em tempos acolhi nos meus abraços. Pareço um miúdo cismado que não consegue pensar para além daquela lembrança que ficara e que se foi. Entendo a angústia dela, por isso entendam vocês a minha: só queria uma memória e nem isso ela me deu. De imagens mentais está a minha cabeça cheia: são demasiadas. Precisava de sentir o peso do meu isqueiro novamente, usá-lo como catalisador para ela, porque não gosto de esquecer as pessoas. Acho que nunca esqueci ninguém verdadeiramente, não que me lembre. Na verdade, lembro-me de toda a gente, e não há gente que saiba que eu sequer me lembre, porque parece que passei ao lado, mas eles não. Nunca tive ninguém que me passasse ao lado. Se o tentasse sequer, este cérebro que é meu e esta memória que é nossa, faria questão de que me lembrasse, em sonhos mórbidos e surreais, que certa pessoa, num certo tempo, num certo lugar, existiu. Toda a gente existiu. Neste momento, desejava que ela não tivesse existido, pelo menos não desta forma que me ocorre instantaneamente, fruto de um desejo que acabou e de um isqueiro, que não era só um isqueiro, que partiu. Nunca terei a memória que queria dela. Nunca terei novamente o tempo que tão pacientemente lhe dei. A associação mental que queria não existe, esta memória que era nossa partiu-se, tão brutalmente quanto o Zippo prateado.

Chuva pesada, cabeça fria. Abro a porta de casa à medida que agito o capuz e o cabelo: cão vadio que volta sem tesão.
“Tão cedo em casa?”. Olá mãe. Espero que estejas boa. Eu e ela já não namoramos. Fui eu a besta. Desculpa se te prometi que “respeitaria sempre as mulheres e nunca as magoaria de forma alguma”. Muitas vezes prometo coisas impossíveis, já me conheces. Ela partiu-me o isqueiro: o coração está no sítio. Não, não fumo. Fiquei fodido por causa disso, continuo fodido. Se “me magoa a separação”? Não sei, acho que é escusado dramatizar. Só sei que ela me partiu o isqueiro. Não, já disse que não fumo.

“Não tive a última aula da manhã…” Filho pródigo de regresso a casa.

“Fizeste bem em vir, não te quero ver metido em más vidas, tens teste amanhã e acho bem que aproveites o tempo para estudar.”. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Que cansaço. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Advertências clichê. Estudar. Estudar. Não há chuva, cabeça pesada.

“Andaste a fumar?”

“Sim, mas foi a última vez.” Mentir tinha tanta piada.

“Maldita namoradita… é bom que te deixes disso, não deites tudo a perder.”

“Já me deixei.” É bem verdade: maldita namoradita. Ita. Ita. Ita.



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