Ainda sentia o ressoar do metal a bater forte na parede:
parece mesquinho, mas é a verdade. Sou insensível a este ponto de ignorar o que
acabara de fazer a alguém que em tempos acolhi nos meus abraços. Pareço um
miúdo cismado que não consegue pensar para além daquela lembrança que ficara e
que se foi. Entendo a angústia dela, por isso entendam vocês a minha: só queria
uma memória e nem isso ela me deu. De imagens mentais está a minha cabeça
cheia: são demasiadas. Precisava de sentir o peso do meu isqueiro novamente,
usá-lo como catalisador para ela, porque não gosto de esquecer as pessoas. Acho
que nunca esqueci ninguém verdadeiramente, não que me lembre. Na verdade,
lembro-me de toda a gente, e não há gente que saiba que eu sequer me lembre,
porque parece que passei ao lado, mas eles não. Nunca tive ninguém que me
passasse ao lado. Se o tentasse sequer, este cérebro que é meu e esta memória
que é nossa, faria questão de que me lembrasse, em sonhos mórbidos e surreais,
que certa pessoa, num certo tempo, num certo lugar, existiu. Toda a gente
existiu. Neste momento, desejava que ela não tivesse existido, pelo menos não
desta forma que me ocorre instantaneamente, fruto de um desejo que acabou e de
um isqueiro, que não era só um isqueiro, que partiu. Nunca terei a memória que
queria dela. Nunca terei novamente o tempo que tão pacientemente lhe dei. A
associação mental que queria não existe, esta memória que era nossa partiu-se,
tão brutalmente quanto o Zippo prateado.
Chuva pesada, cabeça fria. Abro a porta de casa à medida que
agito o capuz e o cabelo: cão vadio que volta sem tesão.
“Tão cedo em casa?”. Olá mãe. Espero que estejas boa. Eu e
ela já não namoramos. Fui eu a besta. Desculpa se te prometi que “respeitaria
sempre as mulheres e nunca as magoaria de forma alguma”. Muitas vezes prometo
coisas impossíveis, já me conheces. Ela partiu-me o isqueiro: o coração está no
sítio. Não, não fumo. Fiquei fodido por causa disso, continuo fodido. Se “me
magoa a separação”? Não sei, acho que é escusado dramatizar. Só sei que ela me
partiu o isqueiro. Não, já disse que não fumo.
“Não tive a última aula da manhã…” Filho pródigo de regresso
a casa.
“Fizeste bem em vir, não te quero ver metido em más vidas,
tens teste amanhã e acho bem que aproveites o tempo para estudar.”. Estudar.
Estudar. Estudar. Estudar. Que cansaço. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar. Estudar.
Estudar. Advertências clichê. Estudar. Estudar. Não há chuva, cabeça pesada.
“Andaste a fumar?”
“Sim, mas foi a última vez.” Mentir tinha tanta piada.
“Maldita namoradita… é bom que te deixes disso, não deites
tudo a perder.”
“Já me deixei.” É bem verdade: maldita namoradita. Ita. Ita.
Ita.
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