De tanto querer, já nem sei para onde me virar. Nada está
claro, e eu ando às turras pelas portas deste quarto subterrâneo. Podias ser
tu, assim muito subtilmente, a abrir-me a porta. Aviso-te que estou bem fundo,
bem fechado. Passo 1: pega na pá; cava até sentires o metal ressoar no metal.
Passo 2: existe uma chave na ranhura da porta. Pega nela e dá-lhe um beijo,
longo e sentido, besunta-a com o teu néctar abençoado de deusa. Ainda não
acabou. Passo 3: coloca a chave de novo na ranhura, tão subtilmente como quando
começaste. Roda a maçaneta, agora com força. Usa cada músculo de ti.
Ardem-me os olhos ao ver-te entrar; queima-se-me a pele da
face e os lábios. Não estou habituado a ver luz: o quarto era escuro, não
queimava, nem uma frincha. De tanto bater de frente pelo meio do vazio, já não
sei o que é sentir calor na face ou nos lábios.
Se calhar devias limpar as mãos e tapar de novo o buraco.
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