- Estou cansado, filho.
Hoje, os olhos dele não brilham: quem tos roubou? Terá sido a menina do pátio que te despiu de ti mesmo? Hoje não te conheço, não sei de quem são estes olhos que olham para mim, nem de quem é esta alma que grita surdamente. Falo com um estranho porque é o que tu és hoje.
- Então, vô?
- Perdi-a, filho. Maldito destino que me tira o que me pertence, maldito aquele que a fez ir embora de mim. Os meus olhos foram com ela: agora não são mais que vidro transparente a estalar, com a minha alma rasgada para o mundo inteiro ver, e este talhante hábil a cortá-la em pedaços cada vez menores, a reduzir-me ao pó dos tempos e da saudade dela. Tira-me deste sol, estou cansado, filho.
Vagarosamente, levei o meu avô pelo jardim, como guia da alma cega que não sabe por onde se virar, aterrorizado pela solidão de outros tempos, tão ousada, tão inusitada, tão despropositada. Velhos conhecidos que se encontravam novamente, tão despropositadamente quanto o tempo sabia bem ditar. Deus. Ceifeira.
- O banco de jardim, filho... Leva-me para lá.
Escorreu uma lágrima, e outra, e outra, 13 lágrimas assim foram, 13 como o destino soube fazer escorrer. Sete maçãs no chão, pisadas. Da última vez que as vira, falava com a sua querida do jeito que bem sabia, do jeito que surgia nos encontros mais românticos, mais sentidos, e todas as sete penduradinhas e reluzentes, no ponto.
Sete maçãs podres no chão, treze lágrimas salgadas de tempero: caldinho do destino.
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